Socialismo: A Religião do Estado

Charlotte D.
February 18, 2021
Karl Marx deixou uma forte herança antirreligiosa para gerações de socialistas, mas por que as religiões são tão incompatíveis com o socialismo? Porque o socialismo constitui uma religião em si.

Anos atrás, minha mãe estava me contando a história de nossa família, quando mencionou que tanto seu pai quanto seu avô, além de não serem religiosos, se recusavam a entrar em uma igreja. Eu me esforcei para entender o porquê. No início, até que prestei atenção a outra coisa que eles tinham em comum: ambos eram partidários fervorosos do Partido Comunista Francês (“Parti Communiste Français” ou PCF). Meu avô mantinha um busto de Lênin em sua estante, lia “l’Humanité”[1] e, claro, se juntava a seus camaradas na “Fête de l’Humanité”, uma grande festa organizada pelo próprio jornal, anualmente, em sua cidade, que tinha um prefeito do PCF e onde grande parte da população era afiliada ao partido comunista.

Suas crenças socialistas foram, obviamente, a causa de sua rejeição à religião. Já que existem de fato muitos incentivos antirreligiosos na ideologia socialista, que se enraízam nas ideias de Karl Marx. Marx qualificou a religião como ‘o ópio do povo’[2] e simplesmente pediu a abolição do que para ele era uma mera ilusão; uma reação devido ao sofrimento do proletariado, e um instrumento de dominação para a burguesia (‘A abolição da religião, enquanto felicidade ilusória dos homens, é a exigência de sua felicidade real.’[3]). Portanto, não é nenhuma surpresa ver grupos religiosos sendo constantemente perseguidos sob regimes autoritários socialistas que promovem o ateísmo de estado. Um bom exemplo contemporâneo é o da China, que atualmente está fazendo uma lavagem cerebral em seus cidadãos desde a infância para eles verem a religião como um inimigo. Além disso, o PCC está reprimindo minorias religiosas como cristãos e uigures muçulmanos de forma organizada e extremamente violenta.

Claro, podemos nos perguntar: por que os socialistas declararam tal guerra às religiões? Por que essas crenças são uma ameaça tão grande para o estado? Bem, em primeiro lugar, tentemos definir o que é o estado (ou governo). O estado na sua forma contemporânea pode ser definido como um grupo de pessoas eleitas democraticamente ou que chegaram ao poder através de um golpe de estado, que tem o monopólio de coerção para emitir políticas e estabelecer regras arbitrárias, bem como para se apropriar dos frutos do trabalho do resto da sociedade por meio de impostos, mas ainda assim muitas pessoas personificam o estado como uma entidade com recursos infinitos. O economista francês Frédéric Bastiat havia observado este fenômeno em seus dias: “[…] você tem uma profunda ilusão em sua cabeça de que existem dois fatores na sociedade: de um lado, os homens que a compõem, e do outro, um ser fictício conhecido como o estado ou o governo ao qual você atribui um código moral de ferro, uma religião, crédito e a capacidade de distribuir amplamente os benefícios e fornecer assistência […][4]”.

A maneira como as pessoas imaginam o estado e se comportam em relação a ele é curiosamente semelhante a como as pessoas agiriam em relação a um Deus. Já poderíamos encontrar raízes dessa ideia de estado semelhante a Deus no Idealismo alemão, que influenciou amplamente o pensamento marxista, o filósofo G.W.F Hegel escreveu “O Estado é como Deus caminhando na Terra”[5].

Os pontos a seguir refletirão aspectos sob os quais o governo busca se atribuir o papel de Deus e como, nesta perspectiva, o socialismo se pretende impor como única religião.

Onipresença, Onipotência e Onisciência

A onipresença é comumente definida como “Poder ou faculdade de existir ou estar presente em diferentes sítios, em simultâneo (ao mesmo tempo).”[6], razão pela qual também caracteriza a capacidade de Deus de estar presente a qualquer momento, em qualquer lugar, olhando para Sua criação, observando os homens e todas as suas ações em suas jornadas de vida . Não é isso que o governo tem tentado fazer cada vez mais ao longo dos anos? Claro, os membros do estado não podem realizar essa tarefa sozinhos, mas podem delegá-la a funcionários públicos espalhados por todo o país, como forças policiais, administrações, professores etc., que se tornarão os olhos do governo e relatarão o que eles terão observado ou foram informado por outra pessoa. Quantas pessoas foram multadas durante os períodos de lockdown sem cometer nenhum crime real simplesmente porque foram vistas por policiais ou denunciadas por seus vizinhos? Quantas pessoas estiveram sob investigação do governo querendo proteger o dinheiro que ganharam porque foram denunciadas por seus bancos a órgãos governamentais? Os cidadãos são simplesmente privados de suas privacidades em tal sistema, o que explica o desenvolvimento de redes “subterrâneas” naqueles, ou seja, pessoas que tentam escapar dessa visão controladora.

A onipotência refere-se ao “Poder supremo ou absoluto; o poder de fazer tudo”[7]. Do ponto de vista religioso, isso implica que o poder de Deus sobre Sua criação é incomparável, invencível, sempre vitorioso e que Sua força e capacidade de realizar Sua vontade soberana são ilimitadas. Parece que o estado está querendo adquirir essa exclusividade de poder. Na verdade, começa com o aumento das regulamentações sobre quase todos os aspectos da vida das pessoas em socialdemocracias como a França e termina com o governo decidindo quem vive e morre em regimes autoritários socialistas como a China. Os lockdowns e toques de recolher são exemplos claros dessa crescente ganância por poder. O governo, sob o título de um Deus amoroso e atencioso, decide que é mais seguro para você parar de trabalhar e ficar em casa por um período de tempo incerto, sob o risco de perder tudo pelo que você já trabalhou, e se você não obedecer a ele usará seu monopólio de poder e enviará forças policiais para puni-lo.

A onisciência pode ser definida como “Saber absoluto; conhecimento abundante sobre tudo”[8]. Na verdade, Deus é o detentor da verdade, Ele possui sabedoria e conhecimento ilimitado de todas as coisas e pode escolher compartilhar esse conhecimento com os seres humanos. O governo parece aspirar a esse monopólio divino da verdade e do conhecimento. Por meio do monopólio da educação e da mídia de propriedade do governo, essa ideia cresceu, e, muitas pessoas, hoje em dia, acreditam que o estado sabe melhor do que eles o que é melhor para eles mesmos e que eles devem cumprir tudo o que o estado diz. Os lockdowns são, novamente, um grande exemplo, todos devemos seguir o governo e os ‘especialistas’, sem fazer perguntas, porque eles não podem estar errados, e toda narrativa que diga o contrário ou faça perguntas será rotulada como “Desinformação” ou “ Teoria da Conspiração” e serão censurados.

Justiça & Solidariedade

O conceito de justiça baseia-se no fato de uma pessoa receber o que merece como consequência de seu comportamento; é justo e objetivo. Uma das características mais importantes de Deus no cristianismo é que Ele é justo, encarna a verdadeira justiça, Seus julgamentos são justos e Ele espera que os humanos ajam de acordo com seus ensinamentos. Assim como Deus, o governo deseja estabelecer sua própria justiça. O fato de os tribunais serem instituições governamentais não torna fácil se opor às suas decisões. Embora tenha o nome de “justiça”, não é necessariamente moralmente bom. A justiça social é um exemplo de um tipo de justiça corrupta, dificilmente pode ser chamada de justiça porque se baseia no roubo, a tributação que não é voluntária constitui roubo, porque o roubo seria ilegal na sociedade e legal quando é feito pelo governo? Um lindo nome e lindas intenções de como usar o dinheiro não mudam a natureza da ação.

A solidariedade é um aspecto importante do Cristianismo, Deus deseja ver os humanos unidos e oferecendo apoio voluntário uns aos outros, especialmente para os necessitados. Isso é, de fato, bastante honroso. No entanto, o governo distorceu o significado dessa noção, pedindo seu próprio tipo corrupto de solidariedade. Tributação para financiar o bem-estar social não constitui solidariedade, doar para uma instituição de caridade sim. Porque? Porque um é voluntário e o outro não, o que torna a solidariedade um gesto tão bonito é o fato de ser feita de forma voluntária. Algumas pessoas tentam justificar essas ações dizendo que o próprio Jesus era um socialista, o que não é nada mais do que um sofisma. Jesus disse para as pessoas ajudarem os necessitados, Ele não mandou roubar dinheiro para fazer isso, sempre foi feito para ser voluntário. O que é engraçado é que a maioria das pessoas nem mesmo percebe que o dinheiro que estão implorando ao governo é na verdade seu próprio dinheiro, o dinheiro dos contribuintes. Isso se deve ao fato de essas pessoas terem tanta fé nesta entidade divina que pensam que pode fornecer recursos infinitos. Os nomes usados ​​pelo governo para se referir ao estado de bem-estar social, como “État-providence”[9] (Estado de Providência) na França, são obviamente destinados a manter a ilusão. Frédéric Bastiat resumiu muito bem a situação na seguinte citação: “O Estado é a grande ficção através da qual todos tentam viver às custas de todos”.[10]

Agora podemos responder à questão de por que os socialistas declararam guerra às religiões. É bem claro que em seu monopólio divino, nenhum Deus quer competição, então se o governo deseja ser o novo Deus do povo, ter autoridade absoluta sobre ele, ele precisa eliminar o pensamento de outros deuses, fornecendo ensinamentos que são não as do governo, e que podem prejudicá-lo.

Os membros do governo podem ser ambiciosos, mas ainda são humanos normais, e sua tentativa de usurpar a identidade de Deus está fadada ao fracasso. A autossuficiência é um atributo-chave de Deus que eles nunca serão capazes de igualar, o governo depende do dinheiro dos contribuintes para o que ele fornece às pessoas, Deus, não. Tudo o que Ele dá vem d’Ele e não foi tirado à força de outra pessoa. Isso significa que se o governo implementar políticas econômicas ruins, como é frequentemente o caso em regimes socialistas, a fonte direta de receita e os meios de ação do estado serão afetados e, então, a queda do regime será apenas uma questão de tempo.

 Portanto, devemos parar de idolatrar o governo, dando a ele o status de Deus que os políticos aspiram, bem como o controle de nossas vidas. O estado finge ser um salvador quando nada mais é do que uma entidade parasita.

[1] Jornal francês fundado por Jean Jaurès, uma das principais figuras francesas socialistas do século 20, e o meio oficial de comunicação do PCF até 1994.

[2] Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, 1844, Karl Marx

[3] Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, 1844, Karl Marx

[4] Discurso sobre o Imposto dos Vinhos e Destilados, 1849, Frédéric Bastiat

[5] Princípios da Filosofia do Direito, 1820, Georg Wilhelm Friedrich Hegel

[6] Léxico Dictionário de Português Online

[7] Dicio Dictionário Online de Português

[8] Dicio Dictionário Online de Português

[9] “Providência” é um termo que tem uma importante conotação religiosa, referindo-se à presença, orientação e assistência de Deus ao longo da vida.

[10] A Lei, 1850, Frédéric Bastiat